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12Aug

A estética pode contribuir para a autoestima, a autoconfiança e o bem-estar feminino. No entanto, a exposição constante a padrões de beleza idealizados pode gerar insatisfação corporal, ansiedade e comportamentos prejudiciais. Neste artigo, entenda a relação entre estética, autoimagem corporal, qualidade de vida e saúde mental, além da importância de realizar procedimentos com segurança, informação e acompanhamento profissional.

Leia o artigo e conheça os sinais de alerta!

Categoria: Saúde e bem-estar

Tempo de leitura: 8 minutos

Introdução

Cuidar da aparência pode fazer parte de uma rotina saudável de autocuidado. Para muitas mulheres, tratamentos estéticos, atividades físicas, cuidados com a pele, cabelos e corpo estão relacionados à autoestima, à autoconfiança e à sensação de bem-estar.Entretanto, a preocupação com a aparência também pode se transformar em fonte de sofrimento quando está associada à comparação constante, à busca por um padrão de beleza irreal ou à sensação de que o próprio valor depende exclusivamente da aparência física.

Um estudo publicado em 2024 na Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação analisou a relação entre estética feminina, satisfação com a autoimagem corporal e qualidade de vida. A pesquisa destaca que os padrões estéticos contemporâneos podem influenciar aspectos emocionais, comportamentais e cognitivos, afetando a autoestima e o bem-estar psicológico.

A questão central, portanto, não é se cuidar ou realizar procedimentos estéticos. O mais importante é compreender qual é a motivação por trás dessa busca, quais expectativas estão envolvidas e como preservar a saúde física e mental durante o processo.



O que é imagem corporal?

A imagem corporal é a maneira como uma pessoa percebe, interpreta e sente o próprio corpo. Ela não corresponde apenas à aparência observada no espelho. Também envolve:

  • pensamentos sobre o corpo;
  • sentimentos de satisfação ou insatisfação;
  • percepção de peso, forma e tamanho;
  • confiança para se relacionar socialmente;
  • atitudes relacionadas à alimentação, aos exercícios e aos tratamentos estéticos.

De acordo com a perspectiva apresentada no estudo analisado, a imagem corporal é multidimensional e pode ser compreendida em três planos:

  1. Físico: relaciona-se às características corporais e à aparência percebida.
  2. Psíquico: envolve autoestima, emoções, pensamentos e possíveis distorções na percepção do corpo.
  3. Sociológico: corresponde à influência da cultura, da mídia, da família, dos grupos sociais e das redes digitais.

Isso significa que a forma como uma mulher se enxerga não é construída de maneira isolada. Experiências pessoais, comentários recebidos ao longo da vida, padrões culturais e imagens consumidas diariamente podem influenciar a relação com o próprio corpo.


Como os padrões de beleza afetam as mulheres?

A sociedade sempre estabeleceu determinados ideais de beleza. No entanto, as redes sociais ampliaram a velocidade e a frequência com que esses padrões são apresentados.Fotos com filtros, edições, iluminação profissional, poses específicas e procedimentos prévios podem criar a impressão de que determinados corpos e rostos são naturais, comuns e obrigatórios. 

Muitas vezes, porém, essas imagens não representam a realidade cotidiana.A exposição contínua a padrões idealizados pode favorecer:

  • comparação excessiva;
  • insatisfação com o próprio corpo;
  • sentimento de inadequação;
  • preocupação constante com a aparência;
  • vergonha de frequentar determinados ambientes;
  • redução da autoestima;
  • comportamentos alimentares prejudiciais;
  • prática compulsiva de exercícios;
  • procura repetitiva por procedimentos.

A Organização Mundial da Saúde reconhece que a saúde mental está relacionada ao bem-estar emocional, psicológico e social. Dessa forma, a insatisfação corporal persistente não deve ser tratada como uma preocupação superficial, pois pode interferir nas relações, no trabalho, na alimentação, no sono e na participação social.


Redes sociais e comparação corporal

As redes sociais podem ter efeitos positivos, como facilitar o acesso à informação, estimular comunidades de apoio e ampliar a representação de diferentes corpos e estilos de vida. Porém, também podem intensificar a comparação social.

Uma pessoa que visualiza diariamente imagens cuidadosamente selecionadas pode passar a comparar sua rotina real com uma versão editada da vida de outras pessoas. Essa comparação tende a ser injusta, pois desconsidera fatores como:

  • genética;
  • idade;
  • condições de saúde;
  • histórico corporal;
  • acesso a tratamentos;
  • recursos financeiros;
  • edição de imagem;
  • iluminação e enquadramento;
  • tempo disponível para exercícios e cuidados pessoais.

American Psychological Association chama atenção para a necessidade de uma utilização consciente das redes sociais, especialmente diante dos impactos que determinados conteúdos podem exercer sobre a saúde mental e a percepção de si.

Embora a recomendação da APA esteja concentrada principalmente no público adolescente, seus princípios também são úteis para adultos: é importante observar como determinados conteúdos influenciam o humor, a autoestima e a relação com o próprio corpo.


A estética pode melhorar a autoestima?


Sim. Procedimentos estéticos e práticas de autocuidado podem contribuir para uma percepção mais positiva da aparência e para o bem-estar de algumas pessoas. 

Um tratamento pode ajudar, por exemplo, uma mulher que deseja melhorar uma característica específica, recuperar a confiança após uma alteração corporal ou simplesmente reservar um momento para cuidar de si. 

O estudo analisado aponta que a estética pode estar associada a:

  • aumento da autoconfiança;
  • sensação de renovação;
  • maior satisfação com a aparência;
  • percepção de autocuidado;
  • melhora da disposição para atividades sociais;
  • fortalecimento da sensação de autonomia.

Entretanto, essa relação não é automática nem igual para todas as pessoas. 

Um procedimento pode produzir satisfação, mas não substitui o tratamento de questões emocionais profundas, como ansiedade, depressão, transtornos alimentares ou preocupação excessiva com defeitos que outras pessoas quase não percebem.

Por isso, é importante evitar a promessa de que um procedimento estético, sozinho, resolverá problemas de autoestima ou transformará completamente a qualidade de vida.


Quando a busca estética se torna preocupante?

A preocupação com a aparência merece atenção quando começa a ocupar espaço desproporcional na vida da pessoa ou quando provoca sofrimento significativo.

Alguns sinais de alerta incluem:

  • passar muitas horas examinando ou escondendo uma característica física;
  • evitar fotografias, encontros ou situações sociais por vergonha da aparência;
  • comparar-se de forma repetitiva com outras pessoas;
  • realizar procedimentos sucessivos sem alcançar satisfação;
  • buscar tratamentos cada vez mais invasivos por impulso;
  • sentir ansiedade intensa diante do espelho;
  • deixar de trabalhar, estudar ou conviver por causa da aparência;
  • adotar dietas extremas ou exercícios compulsivos;
  • acreditar que não será feliz ou aceita sem modificar o corpo;
  • solicitar procedimentos incompatíveis com a realidade ou com a própria segurança.

Esses sinais podem estar relacionados a sofrimento psicológico e, em alguns casos, a condições como transtornos alimentares ou transtorno dismórfico corporal. 

A NHS — National Health Service explica que o transtorno dismórfico corporal envolve uma preocupação intensa com uma suposta falha na aparência, que pode ser pequena ou não percebida pelas outras pessoas. Somente um profissional habilitado pode realizar diagnóstico. A presença de um ou mais sinais não significa, necessariamente, que a pessoa tenha um transtorno. Porém, indica que pode ser importante buscar avaliação psicológica ou médica.


O papel do profissional de saúde em relação a estética

O profissional de saúde que se propõe a entregar um resultado estético possui uma responsabilidade que vai além da aplicação de técnicas. O atendimento deve considerar a individualidade, as expectativas, as condições de saúde e os limites de cada cliente. 

Um atendimento ético e humanizado normalmente inclui:

  • escuta cuidadosa das necessidades da cliente;
  • avaliação adequada antes do procedimento;
  • explicação clara sobre benefícios, limitações e riscos;
  • expectativas realistas;
  • respeito à autonomia e ao consentimento;
  • indicação de procedimentos compatíveis com a formação profissional;
  • orientação para procurar outros profissionais quando necessário;
  • ausência de promessas exageradas;
  • preservação da privacidade e da dignidade da cliente.

    Lei do Ato Médico (Lei nº 12.842/2013) regulamenta o exercício da medicina no Brasil. Ela define quais ações e procedimentos de saúde são exclusivos de profissionais com diploma superior em medicina e registro no Conselho Regional de Medicina, visando proteger a segurança dos pacientes.


Como escolher um procedimento de forma segura?

Antes de decidir por um tratamento estético, é recomendável refletir sobre alguns pontos.

1. Qual é a minha motivação?

Pergunte a si mesma:

  • Estou fazendo isso por vontade própria?
  • Sinto que preciso me modificar para ser aceita?
  • Estou tentando atender a uma pressão externa?
  • Espero que o procedimento resolva um problema emocional?
  • Tenho uma expectativa realista sobre o resultado?

A motivação não precisa ser “perfeita”, mas é importante que a decisão seja consciente e não baseada apenas em medo, vergonha ou pressão.

2. O procedimento é realmente necessário?

Nem toda insatisfação precisa ser corrigida por um tratamento. Algumas características fazem parte da diversidade natural dos corpos e não representam um problema de saúde.A decisão deve considerar não apenas o desejo de mudança, mas também os riscos, os custos, o tempo de recuperação e a possibilidade de frustração com o resultado.

3. O profissional é habilitado?

Verifique:

  • formação e registro profissional, quando aplicável;
  • experiência com o procedimento;
  • condições de higiene do local;
  • informações sobre produtos e equipamentos;
  • autorização sanitária do estabelecimento;
  • existência de avaliação e termo de consentimento.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária — Anvisa disponibiliza orientações relacionadas à segurança de serviços e produtos sujeitos à vigilância sanitária.

4. Recebi informações completas?

Antes de realizar qualquer procedimento, a cliente deve saber:

  • como ele é realizado;
  • quais resultados são possíveis;
  • quais são os efeitos adversos;
  • quais cuidados devem ser adotados;
  • quanto tempo pode levar a recuperação;
  • quando o procedimento não é indicado;
  • quais profissionais podem realizá-lo legalmente.

Desconfie de promessas como “resultado garantido”, “sem nenhum risco”, “transformação imediata” ou “corpo perfeito”.


Estratégias para construir uma relação mais saudável com o corpo

A satisfação corporal não depende apenas da aparência. Ela também pode ser fortalecida por mudanças na forma de pensar, sentir e agir.

Reduza a comparação nas redes sociais

Reavalie as contas que você acompanha. Dê preferência a perfis que apresentem diversidade corporal, informações responsáveis e uma visão realista do autocuidado.Também pode ser útil observar como você se sente após navegar pelas redes. Se determinado conteúdo provoca tristeza, ansiedade ou sensação de inferioridade, talvez seja necessário reduzir a exposição.

Valorize a funcionalidade do corpo

O corpo não precisa ser apreciado somente por sua aparência. Ele também permite:

  • movimentar-se;
  • trabalhar;
  • abraçar;
  • descansar;
  • respirar;
  • criar;
  • cuidar de outras pessoas;
  • vivenciar experiências.

Reconhecer a funcionalidade corporal não elimina o desejo de mudar algo, mas ajuda a ampliar a percepção sobre o próprio corpo.

Pratique autocuidado sem punição

Atividade física, alimentação equilibrada, sono adequado e cuidados estéticos podem fazer parte de uma rotina saudável. O problema surge quando essas práticas são utilizadas como punição ou quando provocam dor, culpa e exaustão constantes.A Organização Mundial da Saúde recomenda a prática regular de atividade física considerando os benefícios para a saúde física e mental. O objetivo deve ser promover saúde e qualidade de vida, e não perseguir um padrão corporal impossível.

Procure apoio profissional

Psicólogos podem ajudar no desenvolvimento da autoestima, na redução da comparação, na identificação de pensamentos autocríticos e na construção de uma relação mais equilibrada com o corpo.Em situações de sofrimento intenso, alterações alimentares, ansiedade persistente ou preocupação excessiva com a aparência, também pode ser necessária uma avaliação médica e multiprofissional.


Estética e saúde devem caminhar juntas

A estética pode ser uma forma legítima de autocuidado, expressão pessoal e bem-estar. Realizar um procedimento não significa falta de aceitação do próprio corpo, assim como optar por não realizá-lo não significa descuido.O ponto fundamental é garantir que a escolha seja livre, informada, segura e compatível com a realidade da pessoa.A busca por melhorias estéticas torna-se mais saudável quando:

  • respeita a individualidade;
  • não está baseada em vergonha;
  • não depende de padrões inatingíveis;
  • considera riscos e limitações;
  • não substitui cuidados médicos ou psicológicos;
  • preserva a autonomia;
  • promove satisfação sem gerar dependência de novos procedimentos.

Como destaca o estudo sobre estética, autoimagem e qualidade de vida, a aceitação da diversidade corporal é essencial para reduzir a pressão estética e favorecer uma relação mais positiva com o próprio corpo.


Conclusão

A aparência pode influenciar a autoestima e a qualidade de vida, mas não deve definir o valor de uma mulher. Procedimentos estéticos e práticas de autocuidado podem contribuir para o bem-estar quando realizados de maneira consciente, segura e equilibrada.Por outro lado, a pressão por alcançar padrões irreais pode favorecer ansiedade, isolamento, baixa autoestima, comportamentos alimentares prejudiciais e sofrimento psicológico. Promover saúde e bem-estar exige uma abordagem ampla, que valorize tanto os cuidados físicos quanto a saúde mental. Nesse processo, profissionais de estética, psicólogos, médicos, nutricionistas, educadores e familiares têm papéis complementares.A verdadeira relação saudável com a estética não está em buscar uma aparência perfeita, mas em fazer escolhas que respeitem a singularidade, a segurança e a qualidade de vida de cada pessoa.

Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui avaliação médica, psicológica ou de outro profissional de saúde habilitado.


Cuidar da aparência pode fazer parte do autocuidado, mas a saúde deve estar sempre em primeiro lugar. Acompanhe a Revista Admedic para encontrar informações confiáveis sobre estética, saúde mental e qualidade de vida.


Referências

  • BISPO DE GODOI, Myllena Pereira; PINTO, Katiely Vieira; CARDOSO, Lahís Alves Lopes. A influência da estética para mulheres e a qualidade de vida na satisfação com a autoimagem corporal. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação, v. 10, n. 6, 2024. DOI: 10.51891/rease.v10i6.14429.
  • AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION. Health advisory on social media use in adolescence. American Psychological Association.
  • BRASIL. Lei nº 12.842, de 2013. Lei do Ato Médico (Lei nº 12.842/2013) regulamenta o exercício da medicina no Brasil.
  • AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Serviços de saúde e segurança sanitária. Anvisa.
  • NATIONAL HEALTH SERVICE. Body dysmorphic disorder — overview. NHS.
  • ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Mental health. World Health Organization.
  • ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Physical activity. World Health Organization.
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28May

A sociologist who underwent a preventative mastectomy embarked on in-depth research into the meaning of breasts in modern society. The result reveals how the hypersexualization of the female body impacts the self-esteem, anxiety, and identity of millions of women.

Margarita Rodríguez
Role,BBC News Mundo | BBC News Brasil
link para artigo original: https://www.bbc.com/portuguese/articles/clyppql92v1o
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  • Tempo de leitura: 13 min

Getty Images

Dois dias antes de se submeter a uma mastectomia dupla, Sarah Thornton saiu para nadar.

Enquanto se trocava, ela olhou para os seus seios e agradeceu por eles estarem ali.

Ela pediu desculpas por não tê-los "amado o suficiente" e pediu perdão "por deixá-los irem".

Foram sete anos "estressantes e exaustivos" de exames médicos e biópsias.

Os médicos estavam preocupados com as suas "muitas células raras", como elas eram atípicas e se modificavam e como cada mamografia era diferente da anterior.

Com histórico familiar de câncer de mama, Thornton decidiu, em 2018, se submeter a uma cirurgia preventiva. Ele se sentiu "incrivelmente afortunada" por não ter desenvolvido a doença.

Após a intervenção e a reconstrução, ela sentiu um "desejo esmagador de entender os inúmeros significados e usos dos seios".

Thornton contou à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC, que, um dia antes da cirurgia, teve a sensação de estar perdendo algo muito importante, que ela não havia compreendido.

Com seus implantes, ela mergulhou em uma pesquisa que durou quatro anos e a levou a conversar com mais de 200 mulheres — "a maioria delas, especialistas nos seios, de diferentes pontos de vista".

Nas suas histórias, a acadêmica canadense procurava se aprofundar "nesta parte do nosso corpo que é relativamente incompreendida, menosprezada e hipersexualizada, ao ponto de que muitas mulheres se sentem meio que à margem dos seus próprios corpos".

Sua pesquisa a levou a muitos lugares, como clubes de strippers, consultórios de cirurgiões, bancos de leite e ateliês de design de sutiãs.

Crédito,Arquivo pessoal/Aya Brackett

'Tits up'

Da sua pesquisa, nasceu o livro Tits Up: What Our Beliefs About Breasts Reveal About Life, Love, Sex and Society ("Tetas para cima: o que nossas crenças sobre os seios revelam sobre a vida, o amor, o sexo e a sociedade", em tradução livre).

"Tetas para cima" é a tradução literal de tits up. Em inglês britânico, estas duas palavras juntas formam uma expressão usada para descrever uma situação desastrosa.

Mas a escritora descobriu que tits up também é uma expressão positiva, empregada por algumas mulheres nos Estados Unidos, para desejar boa sorte umas às outras.

"Trata-se de levantar os ombros e ir em busca do sucesso", explica ela.

"Você pode dizer isso, por exemplo, a uma CEO [diretora-executiva de uma companhia] antes de uma apresentação frente à diretoria da empresa ou aos seus funcionários.

"A socióloga escreveu livros de arte e foi pesquisadora e professora de várias instituições, como a Universidade de Sussex, no Reino Unido, e a Universidade da Califórnia em Berkeley, nos EUA.

Crédito,Linda Davidson/The Washington Post via Getty Images
Legenda da foto,Thornton também escreveu os livros 'Sete Dias no Mundo da Arte' e '33 Artistas em 3 Atos'.
 Aqui, ela aparece na Galeria Hirshorn de Washington (EUA), ao lado de uma obra do 
artista Ernesto Neto, em 2014

Além de buscar os pontos de vista de mulheres e especialistas sobre os seios, estudos e literatura especializada, Thornton questionou sua própria visão.

"Senti que havia dois aspectos", ela conta. "Um era que os meus peitos atraíam a atenção masculina de uma forma que nem sempre eu desejava."

O outro tinha relação com o significado, em inglês informal, da palavra boobs, uma das mais populares (entre outras) para se referir aos seios. Este termo, segundo o Dicionário Cambridge, também pode significar "idiota" e "gafe".

A combinação de "peitos como idiotas e peitos como objetos de atenção não desejada" levou Thornton a sentir uma certa desconexão dos próprios seios.

Ao começar sua pesquisa, ela conta ter descoberto que 40% das mulheres do Ocidente não estão satisfeitas com seus seios.

"A principal cirurgia plástica praticada por mulheres de quase todas as culturas é a mamária. Por que gastamos tanto dinheiro para levantar, aumentar e encolher nossos seios?", questiona Thornton.

Sinal equivocado

A socióloga considera fundamental que as mulheres se sintam menos julgadas e pressionadas em relação aos seus seios.

"Existe uma terrível associação que ainda persiste em muitos lugares: que as adolescentes com seios grandes estão sexualmente disponíveis. Se você for uma adolescente com seios grandes, é mais provável que sofra assédio."

"A vinculação dos peitos com uma espécie de sinal de disponibilidade para os homens é um imenso problema para as jovenzinhas", lamenta ela.

Thornton conta que seus seios começaram a crescer com pouca idade. Isso fez com que ela se considerasse mais velha e ela não estava preparada para isso.

"Meu cérebro era de uma menina de 12 anos, eu era muito inocente, mas havia homens que me observavam como se eu tivesse 18", relembra ela.

"Isso pode gerar traumas", afirma Thornton, com conhecimento de causa.

Refúgio nos casacos de gola alta

Quando ela tinha 15 anos, o chef do restaurante onde trabalhava colocou as mãos nos seus seios.

"Um dia triste", escreveu Thornton no seu livro. "Uma humilhante iniciação à agressão sexual.

"Um ano depois, em uma festa de pijama na casa de uma amiga, outro homem fez o mesmo. Era meia-noite e aquelas mãos a despertaram. Era o namorado da irmã mais velha da sua amiga.

Aqui voltamos ao início desta reportagem — aos momentos vividos dois dias antes da mastectomia, que ela recorda com "profunda saudade", segundo conta à BBC.

Crédito,Getty Images
Legenda da foto,Thornton conta no seu livro que, com 16 anos, sentiu que deveria 'enterrar' seus seios em
casacos largos e de gola alta

Thornton se "reconciliou com a perda", mas confessa que não foi uma pessoa que valorizasse seus seios. E relembra suas experiências negativas durante a adolescência.

"Desde os 16 anos, eu adorava meus casacos de gola rolê, minhas camisas de gola alta, não me sentia livre para apreciar meu decote."

"Desde muito jovem, senti muita vergonha dos meus seios. Eu sentia que, se não fosse cuidadosa, eles poderiam me colocar em perigo", ela conta.

Depois que chegaram os filhos, Thornton confessa que a experiência de amamentá-los não foi fácil. Ela não desfrutou tanto como havia desejado.

Mas ela considera mágico o ato de amamentar, devido ao extraordinário vínculo de amor e nutrição que ele cria. E destaca que isso é fundamental.

"Considero que, de forma geral, nas Américas, os seios estão muito sexualizados", afirma Thornton."

Muitas pessoas acreditam, erroneamente, que as mulheres têm peitos para atrair os homens e a verdade é que, biologicamente e segundo a evolução, sua única razão é para alimentar os bebês."

Da realeza até Hollywood

Thornton destaca que a sexualização dos seios no Ocidente e a ideia de que eles "servem para atrair os homens" é recente.

Na Europa, esta noção remonta ao Renascimento, mais especificamente à França do século 15. Ela está relacionada ao auge do emprego de amas de leite, muitas delas camponesas, por parte da aristocracia.

Crédito,Sepia Times/Universal Images Group via Getty Images
Legenda da foto,'Dama no banho' é um quadro de 1571 do artista renascentista francês François Clouet
(c.1510-1572), pintor da corte francesa dos reis Francisco 1° (1494-1547), Henrique 2° 
(1519-1559) e Carlos 9° (1550-1574)

"Os reis da França transformaram os seios das suas amantes que nunca amamentaram em fetiche, já que elas tinham amas de leite que faziam isso no seu lugar", segundo a acadêmica.

"Só quando o peito não é usado para alimentar um bebê, ele pode se transformar em propriedade do marido ou amante."

Por isso, Thornton defende que, separado da sua função principal, o seio recebeu um aspecto erótico.

A associação dos seios como "fetiche", originária na França, se estendeu pela Europa até chegar aos Estados Unidos, onde Hollywood a transformou em um negócio.

A socióloga destaca que, depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), os seios se transformaram no "principal patrimônio" de atrizes lendárias, como Jayne Mansfield (1933-1967), Jane Russell (1921-2011) e Sophia Loren.

Crédito,Earl Leaf/Michael Ochs Archive via Getty Images
Legenda da foto,Sophia Loren e Jayne Mansfield em uma festa organizada pelos estúdios Paramount para
dar as boas-vindas a Hollywood à atriz italiana, em 1957

"Não é por acaso que Marilyn Monroe [1926-1962] foi a capa da primeira edição da revista Playboy, em 1953", relembra Thornton.

"À medida que ela crescia como atriz de Hollywood, seus seios se tornavam uma espécie de brincadeira e objeto sexual."

Crédito,Screen Archives via Getty Images
Legenda da foto,Marilyn Monroe sentada na cama de um trem no filme 'Quanto Mais Quente Melhor' (1959)

Neste processo de sexualização, a socióloga destaca que o tamanho dos seios começou a ganhar cada vez mais importância, até se chegar, anos depois, à moda dos "seios turbinados".

Ela acredita que isso ocorreu, em parte, porque, no início dos anos 1960, dois cirurgiões americanos desenvolveram o primeiro implante mamário de silicone.

"Aquilo se tornou algo comum em Hollywood e, a partir dali, seu uso se ampliou para outros lugares, entre mulheres ricas e, depois, de classes menos abastadas", relembra Thornton.

Os direitos das mulheres

Thornton destaca que o movimento feminista foi fundamental para a criação da consciência sobre o corpo feminino.

"Acredito que a onda de feminismo que ocorreu nos anos 1970 e 1980 tenha se concentrado na parte inferior do corpo das mulheres, nas vaginas e nos úteros", segundo ela.

"A criminalização da violação foi uma conquista incrivelmente importante do movimento feminino naquela época", indica ela, bem como a promoção dos direitos reprodutivos.

Crédito,Bob Parent via Getty Images
Legenda da foto,Em agosto de 1970, foi realizada uma marcha em Nova York, convocada pela Organização
Nacional de Mulheres dos Estados Unidos. As participantes pediam igualdade de condições
trabalhistas e assistência infantil gratuita.

"Mas também acredito no direito das mulheres sobre suas partes superiores, da cintura para cima", prossegue a socióloga.

"Acredito no direito de uma mulher de decidir ficar de topless na praia, usar ou não sutiã, amamentar ou não, reduzir, aumentar ou levantar os seios.

"Ou simplesmente não fazer nada com eles.

Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, Thornton contou que, até começar a trabalhar no livro, não havia percebido que os mamilos masculinos estão "por toda parte", enquanto as mulheres tendem a se sentir incomodadas quando mostram os seus.

"Isso ocorre, em parte, porque existe essa noção de que os nossos peitos são principalmente objetos sexuais e não nos pertencem", destacou ela.

Esta ideia prejudica muitas mulheres, explica ela à BBC News Mundo.

 "Nós, mulheres, podemos nos sentir excluídas pela sexualização dos nossos seios e isso nos dá a sensação de que eles não nos pertencem, que sua principal razão de ser não é a que nós lhes oferecemos. E isso ocorre, em parte, porque se dá muita importância à sua aparência."

Crédito,Getty Images
Legenda da foto,Em 1962, foi realizada em Houston, no Texas (EUA), a primeira cirurgia de aumento mamário
utilizando implantes de silicone. A intervenção se expandiu pelos Estados Unidos e chegou a
outros países (foto genérica)

Para a pesquisadora, é fundamental que as mulheres se perguntem como elas se sentem em relação aos seus seios.

"Provavelmente, quando observamos nossos corpos no espelho, estamos olhando para nós com os olhos dos homens", explica ela.
"Fomos treinadas para isso desde muito jovens."

Mas a questão não é apenas visual, segundo Thornton. Existe também o verbal.

Se perguntarmos, por exemplo, a um menino adolescente extrovertido formas de chamar os seios, ele poderá oferecer diversas palavras com "grande alegria".

"As mulheres não sentem essa alegria e, por isso, acredito que sentimos que nossos seios não nos pertencem, pois não os estamos definindo, não estamos assumindo o controle das conversas sobre eles e acabamos nos afastando deles."

Em outras partes do mundo

Thornton explorou outras culturas e concluiu que "os seios não são universalmente eróticos".

As evidências da antropologia indicam que a atração em relação aos seios ocorre em algumas culturas e não em outras.

"Em comunidades indígenas de clima tropical, onde as mulheres não usam roupa acima da cintura e amamentam abertamente, os seios pertencem aos bebês", escreveu ela no livro.

Crédito,Jim Heimann Collection via Getty Images
Legenda da foto,Mulher japonesa vestida com quimono

A autora também menciona em sua obra uma comunidade no Máli que considera "antinatural" que os adultos se sintam sexualmente atraídos pelos peitos femininos.

"Estudos antropológicos da década de 1980 demonstram que diversas comunidades do sudeste da Ásia e da África consideravam o comportamento americano e europeu em relação aos seios como algo deturpado", ela conta.

"Na Ásia, de forma geral, os seios não foram sexualizados ao nível verificado no mundo ocidental. Se você observar fotos de beldades chinesas ou gueixas japonesas, verá que elas têm os peitos achatados."

Lição do Éden

Outro aspecto abordado pela acadêmica é como a religião influenciou a percepção dos nossos corpos.

"Mesmo se você for ateu, mesmo se não tiver visitado uma igreja há 20 anos", existe, segundo Thornton, uma ideia que influenciou a nossa compreensão do corpo feminino."

"O que Eva aprendeu no Jardim do Éden?", pergunta ela.

"Depois de reler, você percebe que o mais importante que ela aprendeu foi a cobrir o corpo, tampar seu 'corpo vergonhoso'. E me chama a atenção como isso foi interpretado de diversas formas."

Crédito,Jim Heimann Collection via Getty Images
Legenda da foto,Pintura que mostra a expulsão do Éden na catedral de Speyer, na Alemanha

Thornton defende que, em muitas culturas, esta história significa que as mulheres devem cobrir não só a parte de baixo, mas também a de cima.

"Frequentemente, quando dou conferências, pergunto ao público: 'Quem é o homem topless mais famoso do mundo, pelo menos nas Américas e na Europa?'. Alguns dizem 'o David de Michelangelo' ou 'Arnold Schwarzenegger', entre outras respostas.

"E eu pergunto: 'Vocês não acreditam que seja Jesus Cristo?'"

"Entramos em tantos lugares, museus, igrejas, livrarias, bibliotecas e vemos o dorso desnudo de Jesus e é algo belo, é uma marca da sua humanidade, da sua universalidade, da sua autenticidade, é uma imagem sagrada", destaca ela.

"Mas, quando falamos das mulheres, nossas partes superiores são consideradas profanas."

Trata-se, segundo a acadêmica, de uma divisão muito profunda entre homens e mulheres. Se os peitos representam a feminilidade, mas são percebidos como profanos, "sempre irão nos situar como inferiores aos homens".

Outra forma de vê-los (e de nos vermos)

Thornton quer ajudar a eliminar a superficialidade com que os seios foram tratados de diversas formas.

"Eles são a fonte da comunicação humana", destaca ela.

"Por que somos sociáveis? Porque nossos bebês precisam de nós e nós deles. A comunicação que ocorre entre uma mãe e uma criança, para mim, é a essência da nossa humanidade."

"Qualquer mãe que esteja amamentando sabe que seus seios, seus mamilos, estão sintonizados com seu bebê", prossegue a escritora. "Que seu peito saberá quando o bebê tem fome antes que o seu cérebro."

Crédito,Fredy Builes via Getty Images
Legenda da foto,As doações para os bancos de leite mantidos pelos hospitais ajudam os bebês cujas mães não conseguem amamentar, além das crianças que foram abandonadas

Além de fazer com que sua pesquisa ajude positivamente as mulheres a "recuperar" o significado dos seus seios e a "nos sentirmos melhor com a nossa metade superior", a socióloga também faz um convite.

"Em relação a muitas destas histórias da humanidade indicando que sempre estamos em guerra, que gostamos de adotar facções, que somos muito competitivos, eu digo que não, que esta é uma visão dos homens do que é a humanidade."

"Se você quiser observar uma alternativa, olhe para a maternidade, os peitos e a carinhosa colaboração que eles oferecem."

Sarah Thornton encerra a entrevista com um exemplo desta cooperação.

Quando uma mãe morre, sofre uma doença grave ou enfrenta problemas para amamentar, nas comunidades onde não havia leite de fórmula, outra mulher se oferecia para dar o peito a uma criança. Esta "bela" prática é universal e persiste até hoje.

No seu livro, Thornton nos apresenta Elysia. Ela foi vítima de abuso sexual e decidiu, muito antes do nascimento do seu filho, que não amamentaria para evitar que isso despertasse traumas do passado.

Além de extrair leite para o seu filho, ela doou centenas de litros para um banco de leite, ajudando a alimentar bebês prematuros.

"Observo meu leite como produto do amor", declarou a escritora.

"Não posso odiar meu corpo. Ele fez algo muito bom. Sou muito mais feliz no meu corpo agora, mesmo se ele for objetivamente menos atraente."


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